Leia o trecho a seguir. O que entendemos por Época Moderna? Tentar responder a essa pergunta implica discutir uma operação central da historiografia: a periodização. Delimitar conceitual e cronologicamente uma época é um esforço necessário na busca pela compreensão do passado e de atribuição de sentido à ação dos agentes históricos, à força de sujeitos coletivos e ao peso das instituições. Nos termos de uma operação de valor discursivo, a periodização não é passível de ser operacionalizada fora do âmbito da sua enunciação; isto é, ao se nomear e, assim, conferir particularidade a uma porção da história da humanidade, expõe-se imediatamente a fragilidade da linguagem em dar conta do sentido latente do que é delimitado pelo conceito. Para tanto, é preciso inicialmente esclarecer que “Época Moderna” “História Moderna” “Primeira Modernidade” e “Período Moderno” são expressões utilizadas como sinônimos funcionais na historiografia e no ensino escolar e universitário em nosso país. Todavia, essas expressões advêm de tradições historiográficas distintas e, assim, refletem estratégias de periodização nem sempre coincidentes. Ao se analisar processos históricos identificados como particularmente europeus, verificase que os tempos assumem velocidades diferentes na constituição da modernidade e mesmo do que se entende por moderno. Adaptado de: ARAÚJO, André; Doré, Andréa; Lima, Luís Filipe; Machel, Marília; Rodrigues, Rui. A Época Moderna. Petrópolis: Editora Vozes, 2024, pp. 13 – 23. Com base na leitura do trecho, é correto afirmar que o procedimento de nomear e periodizar a época moderna representa
- A)uma percepção de que o tempo histórico em questão é sentido da mesma forma por todos os contemporâneos que o vivenciaram.
Errada, porque contemporâneos de uma mesma época não vivenciam o tempo histórico da mesma forma, já que experiências sociais, políticas e culturais são diferentes.
- B)um consenso entre as diversas tradições historiográficas, que realizam uma análise unificadora sobre o tema da modernidade.
Errada, porque o texto destaca justamente a existência de tradições historiográficas distintas, não um consenso unificador.
- C)uma abordagem que considera apenas a percepção dos personagens históricos sobre o tempo em que viveram, tratando-os como autoridades na definição da periodização.
Errada, porque a periodização não depende apenas da percepção dos agentes históricos do passado, mas da interpretação construída pelo historiador.
- D)uma visão de que o início e o fim de um período histórico são processos naturais, determinados por referências temporais padronizadas.
Errada, porque períodos históricos não surgem de forma natural ou automática; eles são construções interpretativas, não marcos padronizados prontos na natureza do tempo.
- E)uma perspectiva que considera o tempo presente e seus debates como fatores determinantes na interpretação dos contextos passados.
Certa, porque a periodização é uma operação historiográfica marcada pelas perguntas e debates do presente, que orientam a leitura do passado.
Gabarito: E
A questão trata de periodização histórica, que é o jeito que a historiografia usa para dividir o passado em blocos com algum sentido explicativo. Isso nunca é neutro: ao escolher onde começa e termina uma época, o historiador também escolhe quais processos vai destacar e quais vozes vão parecer mais importantes. Ou seja, periodizar não é só marcar datas, é interpretar o passado. No caso da História Moderna, a ideia de “moderno” muda conforme o problema estudado e a tradição historiográfica adotada. Por isso, o texto chama atenção para o fato de que expressões como Época Moderna e História Moderna não têm um significado totalmente fixo nem universal. Elas dependem do presente de quem escreve, das perguntas que o historiador faz e do recorte que ele quer construir. É justamente aí que o gabarito E faz sentido. A periodização é influenciada pelo tempo presente, porque o historiador lê o passado a partir das preocupações do seu próprio tempo. Em outras palavras, os debates atuais ajudam a decidir o que vale ser destacado no passado, como interpretar mudanças e até como nomear um período. A história não é um espelho do ontem; ela é uma conversa do hoje com o ontem. Por isso, a alternativa E está correta: nomear e periodizar a época moderna revela uma perspectiva que leva em conta o presente e seus debates como chave de interpretação dos contextos passados. As demais alternativas caem em armadilhas clássicas, como achar que todo mundo viveu o tempo da mesma forma ou que a divisão histórica é natural e automática.