Analise a imagem e leia o trecho a seguir. Fonte: Códice Magliabechiano, fol. 70r. A imagem retrata um ritual mexica praticado na região central do México, no qual ocorre um sacrifício humano como oferta aos deuses. Na cena, é possível observar uma pirâmide, com um personagem central retirando o coração do sacrificado, enquanto outras pessoas observam o ato. Sobre esse ritual, o humanista espanhol Juan Ginés Sepúlveda escreveu no século XVI: Não é, portanto, a simples infidelidade a causa desta guerra justíssima contra os bárbaros, mas sim seus sacrifícios de vítimas humanas, as extremas injúrias que faziam a muitos inocentes, os horríveis banquetes de corpos humanos, o culto ímpio dos ídolos. O que poderia ter ocorrido a esses bárbaros de mais conveniente ou mais saudável do que ficarem submetidos ao império daqueles cuja prudência, virtude e religião os transformariam de bárbaros, seres que mal mereciam o nome de seres humanos, em homens civilizados, tanto quanto poderiam sê-lo; de tolos e libidinosos, em probos e honrados; de ímpios e servos dos demônios, em cristãos e adoradores do verdadeiro Deus? Adaptado de SEPÚLVEDA, Juan Ginés de. Tratado sobre las justas causas de la guerra contra los indios. México, Fondo de Cultura Económica, 1987, p. 133. Com base na análise da imagem e na leitura do trecho, assinale a opção que descreve corretamente a posição de Sepúlveda sobre o ritual.
- A)Considera o ritual uma expressão de uma cultura diversa, respeitando suas crenças e tradições.
Errada, porque Sepúlveda não respeita nem relativiza o ritual indígena, mas o usa como prova de barbárie.
- B)Julga o ritual uma expressão religiosa sem valor ou importância, manifestando seu desinteresse.
Errada, porque o texto não demonstra indiferença, e sim forte julgamento moral e político.
- C)Demoniza as práticas ritualistas indígenas, justificando a submissão dos nativos à monarquia espanhola por meio da guerra.
Certa, porque o autor condena os sacrifícios humanos e os apresenta como justificativa para a guerra e a submissão dos indígenas à Espanha.
- D)Critica a cultura mexica e defende o extermínio dos indígenas, visto que não podem ser convertidos.
Errada, porque Sepúlveda não defende o extermínio dos indígenas, mas sua sujeição e conversão sob domínio espanhol.
- E)Avalia os costumes religiosos dos indígenas como indignos, defendendo sua exclusão do Império Ibérico.
Errada, porque ele não propõe exclusão do Império Ibérico, e sim a incorporação forçada pela conquista e evangelização.
Gabarito: C
Sepúlveda foi um dos autores mais duros na defesa da conquista espanhola da América. Para ele, os sacrifícios humanos mexicas, os chamados "banquetes de corpos humanos" e o culto aos ídolos eram sinais de barbárie e de impiedade, algo que, na sua visão, justificaria uma guerra "justíssima" contra esses povos. Ou seja, ele não está fazendo uma leitura neutra do ritual: está condenando a prática e usando essa condenação como argumento político e religioso. Essa postura faz parte do debate do século XVI sobre a conquista e a evangelização dos indígenas. Sepúlveda defendia a ideia de que os espanhóis poderiam submeter os nativos porque seriam mais "prudentes", "virtuosos" e cristãos, tese associada à chamada guerra justa. Já Bartolomé de Las Casas, seu grande opositor, criticou esse tipo de raciocínio e defendeu a humanidade dos povos indígenas. Por isso, a alternativa C é a correta: ela resume exatamente o tom do texto, que demoniza as práticas ritualistas indígenas e transforma essa imagem negativa em justificativa para a submissão dos nativos pela guerra. Não se trata de respeito cultural, nem de simples desinteresse, mas de uma argumentação colonial clássica para legitimar dominação. Em prova da FGV, vale ficar atento: quando o texto traz termos como "bárbaros", "ímpio" e "guerra justíssima", ele quase sempre aponta para uma visão etnocêntrica e justificadora da conquista, não para uma descrição neutra do outro.