Quando o Brasil importava anualmente 50 a 60 mil escravos, sendo a importação de escravos, como é sabido, exclusiva da importação de braços livres, devia necessariamente acontecer que, ainda mesmo não conhecendo os quadros estatísticos dessa importação, os nossos fazendeiros, os nossos homens políticos, os habitantes do Brasil enfim, a quem não podia escapar essa progressão ascendente do tráfico, fossem feridos pela consideração do desequilíbrio que ela ia produzindo entre as duas classes de livres escravos, e pelo receio dos perigos gravíssimos a que esse desequilíbrio nos expunha. CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: Uma história das últimas décadas da escravidão na corte. Companha das Letras, São Paulo, 1990. Adaptado. Sobre o sentimento de insegurança entre os senhores de escravizados durante os últimos anos de escravidão no Brasil, é correto afirmar que estava relacionado
- A)à possível influência da experiência haitiana entre os escravizados.
Correta: o medo senhorial estava ligado ao impacto simbólico da Revolução Haitiana, que mostrava ser possível uma insurreição escrava vitoriosa.
- B)à preponderância de formações de quilombos em regiões urbanas.
Errada: quilombos urbanos existiram, mas não explicam o principal sentimento de pânico senhorial destacado no contexto da questão.
- C)ao aumento de casamentos exogâmicos entre negros e brancos.
Errada: casamentos exogâmicos não foram o fator central da insegurança dos senhores no final da escravidão.
- D)à contaminação de senhores por doenças consideradas africanas.
Errada: doenças atribuídas aos africanos não são o núcleo da questão, que trata do medo político e social da rebelião escrava.
- E)ao predomínio da participação de negros livres e libertos em decisões políticas.
Errada: a participação de negros livres e libertos na política foi limitada e não corresponde ao medo central mencionado no texto.
Gabarito: A
Nos últimos anos da escravidão no Brasil, os senhores passaram a enxergar o cativeiro com mais medo do que costume. Isso aconteceu porque o sistema estava ficando cada vez mais instável: havia crescimento do número de pessoas escravizadas, aumento de tensões sociais e, principalmente, o exemplo revolucionário do Haiti, que assustava as elites escravistas das Américas. A ideia era simples e bem alarmante para eles: se em Saint-Domingue os escravizados conseguiram derrotar os senhores e formar um Estado independente, algo parecido poderia ocorrer em outros lugares com grande concentração de cativos. No Brasil, esse receio não era apenas teoria de gabinete. Ele aparecia em debates políticos, em medidas de controle social e na vigilância constante sobre escravizados, libertos e livres pobres. A elite interpretava qualquer movimento de resistência, fuga, reunião ou mobilização como possível sinal de rebelião geral. Não era paranoia gratuita: era o medo de que a maioria cativa, em certas regiões, se organizasse contra a ordem escravista. Por isso, o gabarito é a alternativa A. A experiência haitiana virou uma espécie de fantasma político para as sociedades escravistas do século XIX. O Haiti mostrou que a escravidão podia ser derrubada pela ação dos próprios escravizados, e esse precedente alimentou o sentimento de insegurança dos senhores brasileiros, sobretudo nas últimas décadas do regime. Em resumo: o medo era menos de um detalhe local e mais do efeito dominó de uma revolução de escravizados bem-sucedida.