Segundo a historiadora Maria Ligia Prado, “Varnhagen e von Martius, ideólogos do Império, escreveram a história oficial do Brasil, e defendiam a monarquia que se opunha às ‘repúblicas caóticas’ da parte espanhola. Dessa maneira, estava clara a diferença que se devia estabelecer entre ‘nós’ e ’eles’, entre o Brasil e os demais países da América do Sul, onde campeavam a desordem, a desunião e a fragmentação, todas alimentadas pelas ideias republicanas”. Adaptado de PRADO, Maria Ligia. O Brasil e a distante América do Sul. In Revista de História, 145, 2001, p. 131-2. A respeito das diferentes trajetórias das nações latinoamericanas após suas independências, com base no trecho citado, é correto afirmar que
- A)a história oficial construída pelos ideólogos do Império conciliou a defesa da monarquia de raiz europeia à idealização da autonomia norte-americana, bem-sucedida em termos políticos e econômicos.
Errada, porque o texto não fala em idealização da autonomia norte-americana, e sim na oposição entre a monarquia brasileira e as repúblicas hispano-americanas.
- B)as independências latino-americanas foram obstaculizadas pela intervenção bélica do Império brasileiro, sobretudo na fronteira amazônica, com a tomada da Caiena, por exemplo.
Errada, porque a questão trata da construção ideológica e historiográfica das diferenças entre Brasil e América Hispânica, não de uma suposta obstrução militar das independências pelo Império brasileiro.
- C)os ideólogos do Império fundaram uma interpretação sobre o mundo hispano-americano que contribuiu para criar um imaginário sobre a outra América, que a dissocia e a separa do Brasil.
Certa, porque expressa exatamente a ideia de que os ideólogos do Império criaram uma interpretação do mundo hispano-americano que ajudou a separar simbolicamente essa outra América do Brasil.
- D)Diferentemente dos vizinhos republicanos, o Brasil não enfrentou desafios de ordem política ao longo do Império que pudessem levar à fragmentação.
Errada, porque o Brasil também enfrentou tensões políticas, revoltas e conflitos ao longo do Império, então não dá para dizer que não houve desafios capazes de gerar fragmentação.
- E)As novas repúblicas da América Hispânica aboliram a escravidão de africanos e ofereceram asilo a escravos fugitivos, por isso foram atacadas pelo Brasil.
Errada, porque generaliza as repúblicas hispano-americanas e mistura temas como escravidão e asilo sem relação direta com o trecho ou com a comparação feita pelos autores citados.
Gabarito: C
A questão gira em torno de uma diferença importante na construção das identidades políticas na América Latina depois das independências. No caso brasileiro, autores como Varnhagen e von Martius ajudaram a montar uma narrativa oficial que valorizava a monarquia e a estabilidade, em contraste com o cenário hispano-americano, visto por eles como mais instável, fragmentado e “republicano demais”. Isso não significa que os países da América espanhola fossem simplesmente “caóticos” por natureza. Esse era justamente o olhar criado por parte da elite imperial brasileira para marcar distância entre o Brasil e os vizinhos. Em outras palavras, a historiografia oficial do Império ajudou a produzir um imaginário de separação entre o Brasil e a América Hispânica. Por isso, o gabarito é a letra C. O trecho de Maria Ligia Prado mostra que a história escrita por esses ideólogos não era neutra: ela servia para legitimar o modelo monárquico brasileiro e, ao mesmo tempo, desenhar uma fronteira simbólica com os demais países sul-americanos. Esse tipo de construção identitária é muito cobrado pela FGV, que adora uma comparação entre Brasil e mundo hispânico. Em resumo: o ponto central não é um fato militar específico nem uma avaliação genérica das repúblicas, mas a criação de um discurso histórico que separava “nós” e “eles”. É a história funcionando também como ferramenta política, e não apenas como memória de gaveta.