De um lado, o tempo medieval, que chamarei naturalmente de tempo das heresias vencidas ou, antes, das heresias sufocadas. A heresia então está lá, permanente, pululando; ela é endêmica, acrescentemos necessária, sem dúvida vital, orgânica, mas ela é sempre abatida. É preciso decompor esse primeiro período em duas fases sucessivas: de início, uma fase de heresias curtas, seguida por uma fase na qual as heresias se tornam cada vez mais tenazes e cada vez mais resistentes. Após essa primeira época, vemos, a seguir, no início do século XVI como essa fratura não se fechou e que contribuiu para fragmentar um universo até então unitário. Adaptado de: DUBY, Georges. Idade Média, Idade dos Homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 207. A partir do texto, assinale a afirmativa que caracteriza corretamente a relação entre o dissenso religioso (heresias) e a igreja cristã, na Europa Ocidental ao longo dos períodos medieval e moderno.
- A)A disposição de mecanismos jurídicos e políticos para o combate das heresias na Idade Média permitiu controlar suas manifestações.
Certa: a Igreja medieval dispôs de instrumentos jurídicos e políticos para reprimir e controlar as heresias.
- B)As heresias medievais, como a dos valdenses, fragmentaram o cristianismo, fundando novas teologias e institucionalizando novas igrejas.
Errada: as heresias medievais não fragmentaram o cristianismo nem criaram, em regra, novas igrejas institucionalizadas como no século XVI.
- C)A Igreja católica adotou a estratégia de tolerar as heresias com maior apoio popular, exercendo uma permissibilidade durante as duas fases citadas.
Errada: a postura da Igreja não foi de tolerância, mas de combate e repressão das dissidências religiosas.
- D)As guerras civis religiosas e as pressões do humanismo moderno colaboraram para aceitação de outras confissões no interior da Igreja católica.
Errada: guerras religiosas e humanismo ajudaram a crise da unidade cristã, mas não significaram aceitação de outras confissões dentro da Igreja católica.
Gabarito: A
No texto, Georges Duby mostra que a Idade Média foi marcada por dissensos religiosos que existiam o tempo todo, mas quase sempre eram abafados pela Igreja. Em outras palavras: a heresia não era uma novidade ocasional, e sim uma tensão permanente que a Igreja tentava conter com ferramentas bem concretas, como condenações doutrinárias, tribunais e ação política dos poderes cristãos. Na Europa ocidental medieval, a Igreja católica não tratou as heresias como algo para conviver tranquilamente. Pelo contrário: articulou mecanismos jurídicos e políticos para combatê-las, como os concílios, as excomunhões, a repressão episcopal e, mais tarde, a Inquisição. Isso ajuda a entender por que o texto fala em heresias "vencidas" ou "sufocadas": elas apareciam, ganhavam força em alguns momentos, mas eram sistematicamente reprimidas. No início da आधुनिकidade, especialmente no século XVI, esse quadro mudou de escala com a Reforma Protestante. A fratura religiosa não se fechou e o cristianismo ocidental deixou de ser um bloco unitário, abrindo espaço para novas confissões. Mas isso não significa que a Igreja medieval tivesse sido tolerante antes, nem que as heresias tivessem automaticamente fundado igrejas organizadas na Idade Média. Por isso, a alternativa correta é a A: ela expressa exatamente a existência de mecanismos jurídicos e políticos de repressão das heresias, capazes de controlar e conter suas manifestações ao longo da Idade Média.