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Historia Mundial · FGV · 2023

Questão comentada de Historia Mundial

Prezada Dra. Natalie Zemon Davis, Fiquei absolutamente encantado ao receber seu artigo sobre as “Razões do Desgoverno”. Eu mesmo estou trabalhando há algum tempo num curto estudo sobre “rough music” (nossa versão do charivari) no século XVIII e início do século XIX na Inglaterra. Portanto, fiquei particularmente entusiasmado ao descobrir trabalho comparativo de sua espécie avançado, embora haja diferenças importantes nos costumes e nas funções. Em certo sentido, suponho que o material do século XVIII na Inglaterra é uma forma atenuada do que você está escrevendo. Adaptado de: WALSHAM, Alexandra. Rough music and Charivari: Letters between Natalie Zemon David and Edward Thompson 1970-1972. Past and Present, 2017. (rough music é uma cacofonia rude, com ou sem ritual mais elaborado, empregada em geral para dirigir zombarias ou hostilidades contra indivíduos que desrespeitam certas normas da comunidade.) No texto, percebe-se a convergência entre os temas investigados pelos dois historiadores. Assinale a opção que apresenta corretamente a perspectiva historiográfica que os estudos dos dois historiadores estão inseridos.

Gabarito: D

A questão conversa com a chamada História Social e Cultural, muito ligada à renovação da historiografia no século XX. Em vez de olhar só para reis, guerras e tratados, esse campo passa a enxergar o cotidiano, os costumes, os conflitos locais, as festas, os rituais e até as formas coletivas de protesto como fontes riquíssimas para entender uma sociedade. É nesse ponto que entram Edward Thompson e Natalie Zemon Davis. Thompson investigou a cultura popular, as resistências sociais e os costumes das classes trabalhadoras e plebeias, sempre atento ao modo como as pessoas comuns davam sentido ao mundo. Já Davis ficou famosa por estudar práticas culturais, conflitos sociais e significados simbólicos em contextos históricos, como em O Retorno de Martin Guerre. O texto menciona rough music e charivari, que eram práticas comunitárias de zombaria e punição simbólica contra quem violava normas coletivas. Isso mostra que o objeto de estudo não é um fato político tradicional, mas sim um comportamento social carregado de sentido cultural. A historiografia aqui valoriza o simbólico, o costume e a experiência coletiva, exatamente como faz a história cultural e social da Nova História. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela descreve corretamente o interesse por dimensões simbólicas e culturais de comportamentos coletivos, como festas populares, rituais e formas de controle social da comunidade. É o tipo de tema que faz o historiador sair do palácio e ir ouvir a rua, sem perder a seriedade acadêmica.

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