A interrupção do tráfico transatlântico dificultou a compra de escravizados diretamente da África, e tornou possível a ressignificação dos corpos negros femininos e de sua tríplice utilização, de modo que ser produto, produtora e reprodutora ganhou destaque sob os olhares de proprietários, traficantes e médicos. A medicina passou a adentrar a senzala para pedagogicamente construir instruções sobre gravidez, parto e pós-parto na manutenção da vida de mães e filhos, entendidos por médicos e proprietários como propriedades que não poderiam sucumbir no momento do nascimento. VIANA, I. da Silva, Tríplice utilização dos corpos negros femininos. Revista Tempo 29,2023, p. 278. Adaptado. A respeito dos fatores que justificam a preocupação com a conservação da saúde das mulheres escravizadas no século XIX, avalie as afirmativas a seguir e assinale (V) para a verdadeira e (F) para a falsa. ( ) A pretensão de garantir novas gerações de trabalhadores que, por nascerem no Brasil, passavam à condição civil de súditos do Império e não mais propriedade de seus senhores. ( ) O interesse pelo aumento do patrimônio senhorial, mediante o crescimento endógeno da população escravizada. ( ) A imposição de cuidados com o bem estar material e espiritual dos escravos que, por serem cristãos precisavam ser assistidos. As afirmativas são, respectivamente,
- A)V – V – F.
Errada, porque a primeira afirmativa é falsa, embora a segunda seja verdadeira e a terceira também seja falsa.
- B)F – V – F.
Certa, porque a primeira é falsa, a segunda é verdadeira e a terceira é falsa.
- C)V – F – V.
Errada, porque inverte a lógica da primeira e da segunda afirmativas.
- D)F – F – V.
Errada, porque a segunda afirmativa não é falsa e a terceira não é verdadeira.
- E)V – V – V.
Errada, porque a primeira e a terceira afirmativas não se sustentam historicamente.
Gabarito: B
No século XIX, especialmente depois da interrupção do tráfico atlântico, a escravidão no Brasil passou a depender mais da reprodução interna da própria população escravizada. Isso fez crescer o interesse dos senhores e de médicos pela saúde das mulheres escravizadas, porque cada nascimento podia significar mais força de trabalho e mais patrimônio. Não era filantropia, era conta de engenho mesmo: manter a vida da mãe e do bebê ajudava a manter a escravidão funcionando. A primeira afirmativa está errada porque nascer no Brasil não tirava automaticamente a condição de propriedade da pessoa escravizada. Antes da Lei do Ventre Livre, de 1871, os filhos de mulheres escravizadas nasciam escravizados, e não súditos livres do Império. A mudança jurídica só veio depois, e ainda assim de forma limitada. A segunda afirmativa é verdadeira porque expressa exatamente a lógica do crescimento endógeno da população escravizada: sem a reposição por tráfico transatlântico, o aumento dos nascimentos interessava diretamente ao patrimônio senhorial. Em outras palavras, mais nascimentos podiam significar mais braços no futuro e menos gasto com compra de africanos. A terceira afirmativa está errada porque a preocupação com saúde, parto e pós-parto não decorreu de um cuidado cristão com o bem-estar dos cativos. O centro da questão era econômico e disciplinar, não humanitário. Por isso, o gabarito é B: F - V - F.