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Historia Mundial · FGV · 2023

Questão comentada de Historia Mundial

Uma concepção relativista do conhecimento do passado, capaz de problematizar os conceitos e procedimentos norteadores da produção historiográfica, pressupõe o entendimento do fato histórico no sentido indagado por Lucien Febre: Os fatos, como os definem vocês? O que associam a essa palavra fato? Acham que os fatos são entregues à história como realidades substanciais, que o tempo enterrou mais ou menos profundamente, e que baste escavar para achá-los, restaurá-los e apresentá-los aos olhos dos contemporâneos? A história é escolha. Não arbitrária, mas preconcebida, já que sem uma teoria preestabelecida não existe a possibilidade de um trabalho científico. Traduzido e adaptado de L. FEBVRE. Problemi di metodo storico. Torino: Einaudi, 1969, p. 87. Com base no texto, indique a afirmativa que descreve corretamente uma concepção problematizadora a respeito dos fatos históricos.

Gabarito: B

Lucien Febvre bate justamente na ideia de que o historiador não encontra o passado pronto, como se ele estivesse “guardado” em uma gaveta e bastasse abrir. Para a História, os fatos não falam sozinhos: eles precisam ser selecionados, interrogados e organizados por uma pergunta de pesquisa. Ou seja, o fato histórico não é simplesmente qualquer acontecimento do passado, mas aquilo que o historiador transforma em objeto de análise dentro de um problema histórico. Essa visão é típica da chamada História-problema, muito associada aos Annales, especialmente a Febvre e Marc Bloch. O ponto central é que o historiador não copia a realidade passada; ele constrói o objeto histórico a partir de fontes, recortes e interpretações. Por isso, a história é escolha, mas não escolha arbitrária: existe método, teoria e crítica das fontes. É exatamente aí que a letra B acerta. Quando diz que o “fato histórico” é o fato do passado promovido à unidade de análise pelo historiador, ela expressa bem essa concepção problematizadora. O acontecimento do passado só vira fato histórico quando ganha sentido dentro de uma investigação. Antes disso, ele é apenas um evento passado, sem o recorte interpretativo da historiografia. As demais alternativas caem em visões mais positivistas ou ingênuas, como se fosse possível reconstituir o passado tal qual aconteceu, sem mediação. Em prova da FGV, desconfie de respostas que falam em objetividade total, neutralidade absoluta ou “verdade pronta” do passado: a banca costuma cobrar justamente essa crítica à ideia de fato como dado bruto.

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