Uma concepção relativista do conhecimento do passado, capaz de problematizar os conceitos e procedimentos norteadores da produção historiográfica, pressupõe o entendimento do fato histórico no sentido indagado por Lucien Febre: Os fatos, como os definem vocês? O que associam a essa palavra fato? Acham que os fatos são entregues à história como realidades substanciais, que o tempo enterrou mais ou menos profundamente, e que baste escavar para achá-los, restaurá-los e apresentá-los aos olhos dos contemporâneos? A história é escolha. Não arbitrária, mas preconcebida, já que sem uma teoria preestabelecida não existe a possibilidade de um trabalho científico. Traduzido e adaptado de L. FEBVRE. Problemi di metodo storico. Torino: Einaudi, 1969, p. 87. Com base no texto, indique a afirmativa que descreve corretamente uma concepção problematizadora a respeito dos fatos históricos.
- A)O fato histórico é considerado um dado cuja articulação e cujo significado são fixados objetivamente.
Errada, porque trata o fato histórico como algo com sentido e articulação fixados objetivamente, o que contraria a ideia de construção histórica pelo historiador.
- B)A expressão “fato histórico” designa o fato do passado que é promovido à unidade de análise pelo historiador.
Certa, pois mostra que o fato do passado só se torna fato histórico quando é selecionado e convertido em unidade de análise pela investigação historiográfica.
- C)O fato do passado instituído como fato histórico é aquele que é documentado e se refere a acontecimentos importantes.
Errada, porque reduz o fato histórico ao que é documentado e ao que seria “importante” de antemão, como se a relevância viesse pronta das fontes.
- D)A investigação científica do historiador permite reconstituir os fatos da história como eles aconteceram realmente.
Errada, pois expressa uma visão positivista de reconstituição fiel do passado “como aconteceu realmente”, incompatível com a concepção problematizadora de Febvre.
- E)O fato histórico é aquele documentado por fontes primárias e intencionais armazenadas em arquivos oficiais.
Errada, porque limita o fato histórico a fontes primárias em arquivos oficiais, confundindo fato histórico com tipo de documento e com uma ideia estreita de prova.
Gabarito: B
Lucien Febvre bate justamente na ideia de que o historiador não encontra o passado pronto, como se ele estivesse “guardado” em uma gaveta e bastasse abrir. Para a História, os fatos não falam sozinhos: eles precisam ser selecionados, interrogados e organizados por uma pergunta de pesquisa. Ou seja, o fato histórico não é simplesmente qualquer acontecimento do passado, mas aquilo que o historiador transforma em objeto de análise dentro de um problema histórico. Essa visão é típica da chamada História-problema, muito associada aos Annales, especialmente a Febvre e Marc Bloch. O ponto central é que o historiador não copia a realidade passada; ele constrói o objeto histórico a partir de fontes, recortes e interpretações. Por isso, a história é escolha, mas não escolha arbitrária: existe método, teoria e crítica das fontes. É exatamente aí que a letra B acerta. Quando diz que o “fato histórico” é o fato do passado promovido à unidade de análise pelo historiador, ela expressa bem essa concepção problematizadora. O acontecimento do passado só vira fato histórico quando ganha sentido dentro de uma investigação. Antes disso, ele é apenas um evento passado, sem o recorte interpretativo da historiografia. As demais alternativas caem em visões mais positivistas ou ingênuas, como se fosse possível reconstituir o passado tal qual aconteceu, sem mediação. Em prova da FGV, desconfie de respostas que falam em objetividade total, neutralidade absoluta ou “verdade pronta” do passado: a banca costuma cobrar justamente essa crítica à ideia de fato como dado bruto.