A progressiva aproximação da História e da Antropologia, o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares e da etnohistória têm contribuído de forma fundamental para uma revisão da história dos índios do Brasil. O resultado prático das pesquisas mais recentes tem sido o surgimento de trabalhos históricos e antropológicos nos quais os índios aparecem como sujeitos ativos nos processos de colonização, agindo de formas variadas e mobilizando as possibilidades a seu alcance para atingir seus interesses que evidentemente se transformavam na nova situação colonial. Fontes primárias, tais como relatos de cronistas e de jesuítas, têm sido reinterpretados de forma a revelar, em suas entrelinhas, toda a complexidade das relações de alteridade. Adaptado de: CELESTINO, Maria Regina. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013, pp.4-11. Com base no texto, assinale a afirmativa que identifica corretamente a contribuição da antropologia para a pesquisa e a escrita da história dos índios do Brasil.
- A)Considera os indígenas em processos históricos enfatizando a autenticidade e pureza de suas culturas e rechaçando dinâmicas de “transculturação”.
Errada, porque retoma a ideia ultrapassada de pureza cultural e rejeita a dinâmica de trocas e transformações históricas.
- B)Reconhece a agência indígena diante do contato com outras culturas para além da dicotomia entre as dinâmicas de “resistência” e “aculturação”.
Certa, pois reconhece a atuação indígena como sujeito histórico e supera a oposição rígida entre resistência e aculturação.
- C)Percebe a imutabilidade da cultura indígena, como a manutenção de tradições e rituais, apesar da passagem do tempo histórico e do contato com outras culturas.
Errada, porque supõe uma cultura indígena imóvel, como se o contato colonial não produzisse mudanças e recriações.
- D)Determina a utilização de registros produzidos por indígenas como únicas fontes capazes de revelar os processos históricos dos que foram agentes.
Errada, porque a historiografia não depende apenas de fontes produzidas por indígenas, mas também relê criticamente fontes coloniais e missionárias.
Gabarito: B
A grande virada apontada no texto é abandonar a ideia de que os povos indígenas aparecem na História apenas como figurantes passivos, presos entre “resistir” ou “serem aculturados”. A aproximação entre História e Antropologia ajudou a ler as fontes coloniais com mais cuidado, enxergando interesses, estratégias, alianças, negociações e adaptações dos próprios indígenas. Em outras palavras, os índios passam a ser vistos como sujeitos históricos, não como massa inerte diante da colonização. Esse olhar vem muito da etnohistória e da antropologia histórica, que permitem reinterpretar cronistas, jesuítas e outros documentos coloniais. O truque é não ler esses textos só pelo que dizem explicitamente, mas também pelo que deixam escapar nas entrelinhas: conflitos, trocas culturais, reelaborações identitárias e usos políticos do contato. A ideia de “transculturação” e de interação cultural substitui visões simplificadoras de pureza, imutabilidade ou desaparecimento. Por isso o gabarito é a letra B. Ela acerta ao reconhecer a agência indígena diante do contato com outras culturas e ao ir além da velha dicotomia “resistência” versus “aculturação”. Hoje, a historiografia tende a mostrar que os indígenas agiam de modo variado: negociavam, selecionavam práticas, redefiniam alianças e buscavam seus próprios objetivos dentro da situação colonial. Em prova da FGV, desconfie de alternativas que tratem cultura indígena como algo congelado no tempo ou que imaginem o indígena apenas como vítima ou apenas como resistente. A leitura contemporânea é bem mais sofisticada, e muito mais próxima da realidade histórica.