Durante muito tempo, pessoas e povos indígenas foram pouco considerados na escrita da história do Brasil. Geralmente abordados apenas nos primeiros momentos da invasão portuguesa, era como se os índios estivessem fadados a desaparecer, não havendo muito o que dizer sobre eles no decorrer da nossa história. Felizmente, essa visão vem mudando. Um olhar sobre a historiografia e sobre a própria realidade atual, mostra que uma maior visibilidade tem sido conferida aos sujeitos indígenas. Sem estes, não é possível compreender a história do Brasil e da América como um todo. Longe de serem passivos, os povos indígenas mostraram uma grande capacidade de se adaptar, resistir e lidar com as realidades brutais, desencadeadas pelo processo de colonização. SIQUEIRA JULIO, Suelen. “Resistências nativas” in: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/resistencias-nativas/ As afirmativas a seguir exemplificam corretamente programas historiográficos que valorizam o protagonismo indígena e repensam a história do Brasil, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)Considerar os indígenas como sujeitos históricos para reconstituir os múltiplos processos de interação entre suas sociedades e as populações que surgiram com a colonização europeia.
Certa, porque reconhece os indígenas como sujeitos históricos e estuda suas interações com os grupos formados na colonização europeia.
- B)Articular as histórias dos índios, as histórias regionais e, em perspectiva mais ampla, a história do Brasil para compreender os processos históricos de formação e desenvolvimento das sociedades americanas.
Certa, pois articula história indígena, regional e nacional para compreender melhor a formação histórica das sociedades americanas.
- C)Levar em conta a diversidade de interesses e de atuação significativas dos distintos povos nativos do continente para superar o apagamento de suas identidades étnicas corroborado pela categoria generalizante de “índios”.
Certa, já que destaca a diversidade entre povos nativos e combate a generalização simplificadora da categoria “índios”.
- D)Escrever a história dos vencidos e denunciar a violência colonial para mostrar a enfatizar a condição de vítima dos ameríndios, deixados sem alternativa a não ser a fuga, a morte por rebeldia ou a submissão aos dominadores.
Errada, porque reduz os ameríndios à condição de vítimas sem agência, negando resistência, negociação e protagonismo histórico.
- E)Conectar histórias e incorporar as contribuições da história indígena e da história da escravidão para repensar seus próprios objetos de análise e incluir os índios como protagonistas na história do Brasil.
Certa, porque integra história indígena e história da escravidão para repensar objetos de análise e incluir os indígenas como protagonistas.
Gabarito: D
A questão trata da virada historiográfica que passou a enxergar os povos indígenas como sujeitos históricos, e não como figurantes que aparecem só no “capítulo 1” da colonização. Hoje, a historiografia brasileira trabalha com a ideia de protagonismo indígena: resistência, negociação, adaptação, alianças, conflitos e permanências, tudo isso faz parte da história do Brasil e da América. Isso aparece em produções de história indígena, história social e história atlântica, além de dialogar com a Constituição de 1988, que reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam (art. 231), reforçando que eles não são restos do passado, mas sujeitos de direitos no presente. As alternativas A, B, C e E caminham nessa direção: elas valorizam a diversidade indígena, rejeitam a generalização simplista de “índios” e conectam a história indígena a temas mais amplos da formação do Brasil. A banca gosta muito dessa leitura mais integrada, em que o indígena deixa de ser coadjuvante e entra como agente histórico de verdade. A letra D é a exceção porque reproduz uma visão antiga e limitada: a dos “vencidos” definidos só pela violência colonial e pela condição de vítima, como se os ameríndios tivessem apenas três destinos possíveis - fugir, morrer ou se submeter. Isso apaga escolhas, estratégias, resistências e negociações, exatamente o oposto do que a historiografia mais recente quer mostrar. Em prova, sempre desconfie de alternativas que transformam um povo inteiro em personagem passivo e sem saída.