Em 1551, o historiador renascentista Fernão Lopes de Castanheda assinalava as preocupações que levaram o rei de Portugal, D. João II, a buscar o Reino de Preste João. Antes que a Índia fosse descoberta pelos Portugueses, a maior parte da especiaria, droga e pedraria dela se vazava pelo Mar Roxo donde ia ter à cidade de Alexandria, e ali a compravam os Venezianos que a espalhavam pela Europa, de que o reino de Portugal havia seu quinhão, que os Venezianos levavam a Lisboa em galés, principalmente reinando nos reinos de Portugal el Rei D. João o segundo deste nome: que como fosse de muitos altos pensamentos, e desejoso de acrescentar seus senhorios e enobrecê-los a serviço de nosso senhor, determinou de prosseguir o descobrimento da costa de Guiné que seus antecessores tinham começado: porque por aquela costa lhe parecia que descobriria o senhorio do Preste João de que tinha fama: para que por ali pudesse mandar levar aquelas riquezas que os Venezianos lhe iam vender. CASTANHEDA, F.L. História do descobrimento e conquista da India pelos Portugueses por Fernão Lopez de Castanheda. Lisboa: Typographia Rollandiana, 1833, p. 1-3. Com base no relato, é correto afirmar que o mito do reino de Preste João foi um elemento importante no processo de expansão marítima de Portugal no século XV, uma vez que, para os portugueses, ele
- A)estava associado a uma demanda mística, de descobrimento do reino islâmico e nestoriano do antigo rei da Etiópia.
Errada: embora o Preste João tenha sido associado ao cristianismo oriental e à Etiópia, a alternativa mistura isso com uma formulação confusa e não corresponde ao objetivo descrito no texto.
- B)estaria situado na Índia, na baía de Bengala, de onde poderiam receber diretamente as especiarias.
Errada: o reino lendário não era situado na baía de Bengala, e a ideia central não era receber especiarias diretamente da Índia por esse meio.
- C)permitiria realizar a conquista do Egito e o controle de Alexandria, para dominar um trecho da rota da seda.
Errada: o texto não fala em conquista do Egito nem em controle da rota da seda, mas em contornar intermediários do comércio de especiarias.
- D)possibilitaria uma aliança para desbancar os intermediários venezianos e mamelucos no comércio das especiarias.
Certa: a busca pelo Preste João fazia parte da estratégia portuguesa de criar alianças e enfraquecer os intermediários venezianos e mamelucos no comércio oriental.
- E)justificaria a tomada de Ceuta, para poder iniciar o processo de conquista do litoral atlântico africano.
Errada: a tomada de Ceuta foi um passo importante da expansão, mas a questão trata da motivação ligada ao mito do Preste João e ao comércio das especiarias, não da justificativa direta de Ceuta.
Gabarito: D
A expansão marítima portuguesa não foi movida só por sede de aventura, mas também por interesses econômicos bem concretos. No século XV, o comércio de especiarias passava por circuitos controlados por intermediários, especialmente mercadores venezianos e poderes islâmicos do Mediterrâneo e do Oriente. Isso encarecia os produtos e diminuía o lucro de Portugal. Daí a ideia de buscar rotas próprias para chegar às riquezas do Oriente, sem depender desses atravessadores. Nesse contexto, o mito do Preste João funcionou como uma espécie de mapa imaginário com promessa de apoio político e religioso. A lenda falava de um poderoso rei cristão em terras orientais ou africanas, com quem os portugueses poderiam firmar aliança. Isso fazia muito sentido para um reino que queria avançar no comércio e também enfraquecer os rivais do circuito das especiarias. Era fé, política e negócio tudo junto, o pacote completo da época. O trecho de Castanheda mostra exatamente essa lógica: ao procurar o Preste João, D. João II esperava encontrar um aliado para contornar os venezianos e os mamelucos, que controlavam a circulação das mercadorias até a Europa. Assim, a busca pelo reino lendário tinha um objetivo estratégico, não apenas místico. O gabarito é a letra D porque ela expressa essa tentativa de quebrar a intermediação comercial e abrir uma via direta de acesso às riquezas do Oriente. Em resumo, a lenda do Preste João foi importante porque ajudou a justificar e orientar a expansão portuguesa como projeto de aliança, conquista e lucro. Quando a banca junta mito, comércio e geopolítica, normalmente ela quer que você enxergue esse jogo de interesses por trás da narrativa religiosa.