A mesma maneira de ser que faz a mulher da sociedade comportar-se na arte de dona de casa, faz brilhar uma coquete na arte de divertir vários pretendentes. As artimanhas do coquetismo exigem um discernimento ainda mais fino, pois conquanto uma mulher bem-educada seja amável com todo mundo já faz muito. De fato, a mulher tem mais espírito, e o homem tem mais gênio, a mulher observa e o homem raciocina. ROUSSEAU, Jean-Jacques, Émilio ou, da educação. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro: 1995, p. 459 e 535. Adaptado. Com base no trecho, é correto afirmar que, para Rousseau,
- A)a inferioridade intelectual das mulheres as posiciona subalternamente no projeto universal de razão iluminista.
Certa: Rousseau associa o homem ao raciocínio e a mulher à observação e ao espaço doméstico, reforçando uma hierarquia intelectual entre os sexos.
- B)a superioridade da razão feminina é percebida na sua capacidade inata de observação, praticada sobretudo nos ambientes dos salões.
Errada: o texto não afirma superioridade da razão feminina, mas uma diferença hierarquizada que mantém a mulher em papel secundário.
- C)a inserção das mulheres na vida pública é facilitada pela sua natural amabilidade e pelo fato de dominar a arte do entretenimento.
Errada: a amabilidade e a arte de entreter pretendentes não significam inserção na vida pública, e sim adequação ao convívio social privado.
- D)a educação feminina é pré-condição para sua emancipação do lar e ativa participação intelectual e política.
Errada: Rousseau não defende emancipação feminina, mas uma educação voltada para o lar e para o desempenho de papéis tradicionais.
- E)a independência socioeconômica conquistada pelas mulheres lhes permite escolher se querem ou não se dedicar às tarefas domésticas.
Errada: independência socioeconômica e escolha livre sobre tarefas domésticas não aparecem no trecho e são anacrônicas em relação ao autor.
Gabarito: A
Rousseau é um autor iluminista, mas isso não significa que ele defenda igualdade de gênero. No trecho, ele atribui funções diferentes a homens e mulheres: o homem seria o do raciocínio, e a mulher, da observação e da sociabilidade. Parece elogio, mas é um elogio com cerca de ferro: a mulher continua presa a um papel doméstico e relacional, sem protagonismo intelectual ou político. Em Émile, Rousseau sustenta uma educação feminina voltada para agradar, administrar o lar e se adaptar ao espaço privado. Ou seja, a mulher não é pensada como sujeito autônomo do projeto universal de razão iluminista, mas como alguém educada para complementar o homem. Isso combina com a visão de época: o Iluminismo ampliou debates sobre liberdade e razão, mas muitos pensadores mantiveram hierarquias de gênero. Por isso, a alternativa correta é a letra A. Ela resume justamente essa ideia de inferioridade intelectual feminina, que a coloca em posição subalterna no modelo racional iluminista. As demais alternativas tentam transformar Rousseau em defensor de emancipação feminina, o que não aparece no texto e nem na doutrina dele. Observação importante: não existe aqui uma base legal ou jurisprudencial, porque o tema é de História das ideias, não de Direito. O foco é a interpretação do texto e da posição de Rousseau sobre a educação e o papel social das mulheres.