Todos nós aprendemos que a ideia moderna de cidadania nasceu na Atenas clássica. Ao mesmo tempo, todos nós descobrimos que a política ou, em outras palavras, o fato de compartilhar, participar e decidir – de forma mais ou menos coletiva, enquanto cidadãos – um destino comum, nascera nas práticas que os Gregos designavam com a expressão ta politica, “os assuntos da pólis”. Estas afirmações não são fruto do acaso. A existência de um léxico antigo e diretamente traduzível em termos contemporâneos – politika/política; politai/cidadão; demokratia/democracia – cria uma ilusão de correspondência entre o fato político tal como existia na Antiguidade clássica e o fato político que se conhece no mundo contemporâneo, ou entre a cidadania antiga e a cidadania contemporânea. (Adaptado de CUCHET, Violaine Sebillotte. “Cidadãos e cidadãs na cidade grega clássica. Onde atua o gênero?” in Revista Tempo, vol. 21, n. 38, 2015.) Com base no trecho citado, analise as afirmativas a seguir e assinale (V) para a verdadeira e (F) para a falsa. ( ) Para a autora, a Antiguidade fornece um terreno adequado para a aplicação de definições contemporâneas da experiência política. ( ) Para a autora, a democracia contemporânea foi inventada pelos gregos, continuando a se basear na tomada de decisão de indivíduos socialmente iguais. ( ) Para a autora, a continuidade dos vocábulos usados para designar a vida política dificulta perceber os novos sentidos atribuídos a termos antigos, como cidadania e democracia. As afirmativas são, na ordem apresentada, respectivamente,
- A)V – V – F.
Errada, porque a autora critica exatamente a aplicação direta de conceitos contemporâneos à Antiguidade.
- B)V – F – V.
Errada, porque o texto não sustenta a ideia de uma democracia moderna inventada pelos gregos nem de igualdade política no sentido atual.
- C)F – F – V.
Certa, porque a autora aponta que a continuidade dos termos pode esconder mudanças de sentido entre Antiguidade e presente.
- D)F – V – F.
Errada, porque a segunda afirmativa não corresponde ao argumento do texto sobre democracia e cidadania antigas.
- E)V – V – V.
Errada, porque as duas primeiras afirmativas contrariam a advertência central da autora.
Gabarito: C
A questão explora uma ideia importante da historiografia: cuidado com as semelhanças de vocabulário entre Antiguidade e mundo moderno. Só porque os gregos usavam palavras como "politika", "politai" e "demokratia", isso não quer dizer que elas significavam exatamente o que significam hoje. A autora do texto alerta justamente contra essa leitura automática, que cria a ilusão de que cidadania e democracia antigas seriam versões iniciais das nossas instituições atuais. Em Atenas, por exemplo, a cidadania era restrita: mulheres, escravizados, estrangeiros e muitos outros grupos ficavam de fora. Além disso, a democracia ateniense funcionava por mecanismos bem diferentes dos contemporâneos, com participação direta de uma parcela limitada da população, e não por representação ampla e igualdade política universal. Então, nada de imaginar um espelho perfeito entre Atenas e o presente. Por isso, a primeira afirmativa é falsa: a autora não diz que a Antiguidade serve como molde adequado para aplicar definições atuais de política. A segunda também é falsa: ela não afirma que a democracia contemporânea foi inventada pelos gregos nem que continue baseada no mesmo tipo de igualdade social. A terceira é verdadeira, porque o trecho mostra exatamente o risco de a continuidade das palavras esconder mudanças históricas de sentido. Em resumo, o gabarito C está correto porque a autora critica a tentação de traduzir o passado com categorias do presente sem cuidado histórico. Em História, palavra parecida não é, automaticamente, ideia igual.