Entretanto, tendo começado sua colaboração nos Quaderni storici, em 1978, ele (Carlo Ginzburg) não havia participado diretamente das primeiras discussões sobre a microanálise, ainda que tenha encontrado aí, como já reconheceu mais de uma vez, um eco familiar das suas próprias preocupações intelectuais. Essas preocupações foram intensamente exploradas em um artigo também publicado em 1979, intitulado “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, no qual Ginzburg discutia a emergência de um “paradigma científico” alternativo nas ciências humanas no século XIX, que ele recuperava em um conjunto diverso de contribuições que iam desde as observações metodológicas do crítico de arte italiano Giovanni Morelli até a psicanálise de Sigmund Freud, passando pela semiótica de Charles S. Pierce e as aventuras detetivescas de Sherlock Holmes, personagem de Conan Doyle. Esse paradigma, cujas origens remontariam ao saber venatório primitivo, apresentava elementos comuns com a medicina e com outras formas de conhecimento que se baseavam na leitura de indícios, pistas, fragmentos e sintomas. A história, com sua salutar incapacidade de se desvencilhar dos elementos singulares, individuais e irrepetíveis, disciplina indiciária por excelência, encontrava seus próprios fundamentos epistemológicos nesse paradigma, que se contrapunha àquele triunfante da física e da ciência moderna, para quem não há outro conhecimento científico possível senão o das regularidades e das universalidades. (CARDOSO, Ciro Flamarion Santana; VAINFAS, Ronaldo. Novos domínios da história. Elsevier, 2012. p. 214. Adaptado.) “Surgiu, na Itália, e se tornou cada vez mais popular no Brasil e na América Latina. É uma metodologia da ciência histórica que leva em consideração fontes e narrativas alternativas:”
- A)Micro-história.
Correta: a micro-história surgiu na Itália e valoriza casos singulares, indícios e fontes alternativas para interpretar processos históricos mais amplos.
- B)História Geral.
Errada: História Geral é uma área ampla de estudo, não uma metodologia baseada em escala reduzida e leitura de indícios.
- C)História Social.
Errada: História Social é uma abordagem importante, mas não é a corrente especificamente associada ao paradigma indiciário e ao foco microanalítico.
- D)História Cultural.
Errada: História Cultural estuda práticas, símbolos e representações, mas não corresponde, por si só, à proposta metodológica da micro-história.
- E)Microanálise cultural.
Errada: microanálise cultural soa próxima, mas não é o nome consagrado da corrente descrita no enunciado, ligada a Ginzburg e à micro-história.
Gabarito: A
A questão fala da micro-história, uma corrente historiográfica surgida na Itália, ligada a autores como Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, que ficou famosa por olhar para o pequeno para entender o grande. Em vez de trabalhar só com grandes estruturas, ela valoriza casos específicos, personagens comuns, indícios, pistas e fontes pouco óbvias. É quase uma investigação de detetive: você junta fragmentos e reconstrói um mundo histórico mais amplo. Esse é exatamente o sentido do texto quando menciona o "paradigma indiciário" de Ginzburg. A ideia é que a História também pode se apoiar na leitura de sinais mínimos, sintomas e vestígios, não apenas em estatísticas e generalizações. Por isso, a micro-história faz muito uso de fontes alternativas, marginais ou fragmentadas, como registros judiciais, correspondências, relatos locais e documentos aparentemente secundários. O gabarito A está correto porque "micro-história" nomeia justamente essa abordagem metodológica: estudar escalas reduzidas para iluminar problemas mais amplos da sociedade e da cultura. Ela surgiu na Itália e depois ganhou muita força no Brasil e na América Latina, especialmente em trabalhos que investigam experiências singulares sem perder a ligação com o contexto histórico maior. Então, se a banca fala em metodologia histórica que considera fontes e narrativas alternativas, pense imediatamente em micro-história. É aquele tipo de tema em que o detalhe não é detalhe: ele é a pista principal.