Então, na verdade, ainda mais solidamente nosso coração se solidifica, quando refletimos que somos arrebatados de admiração, mais pela dignidade do conteúdo que pela graça da linguagem. Ora, isso não se deu sem a [...] providência de Deus, ou seja, que os sublimes mistérios do reino celeste fossem [...] transmitidos em termos de linguagem singela e sem realce. Ora, quando essa simplicidade não burilada e quase rústica provoca maior reverência de si que qualquer eloquência de oradores retóricos, como há de julgar-se, senão que a pujança da verdade da Sagrada Escritura se manifesta de forma tão sobranceira, que necessidade nenhuma há do artifício das palavras? [...] porque a verdade se dirime de toda dúvida quando, não se apoiando em suportes alheios, por si só ela própria é suficiente para suster-se. (João Calvino. As Institutas ou Tratado da religião cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 2006. p. 88-89.) Dentre os principais nomes do movimento que acabaria reconhecido como Reforma Protestante, o teólogo francês João Calvino (1509-1564) se tornaria um dos mais conhecidos. A sua concepção de fé deu origem ao Calvinismo, que acabou por influenciar outros setores além da religião, pois:
- A)Calvino foi a fundo no estudo do que produzia riqueza ou pobreza e afirmava que a queda do homem gerava injustiças sociais irreversíveis.
Errada, porque Calvino não formulou uma teoria sobre riqueza e pobreza como causa de injustiças sociais irreversíveis.
- B)Calvino destaca que há diferença entre “os donos do meio de produção” e aqueles “que vendem a força de trabalho”, despertando revoltas trabalhistas.
Errada, porque essa oposição entre patrões e trabalhadores é linguagem do marxismo, não do calvinismo.
- C)O calvinismo e o capitalismo se “encontraram” e ambos tiveram afinidades. O calvinista ama trabalhar porque assim glorifica a Deus e o capitalista porque obtém lucro.
Certa, porque a ética calvinista valorizava o trabalho disciplinado e isso foi associado ao desenvolvimento do capitalismo.
- D)A sua premissa de que a “fé se expressava em obras” foi incutida exponencialmente na sociedade europeia da época, gerando uma onda de obras sociais nunca vista.
Errada, porque o calvinismo não defendia obras sociais como núcleo da salvação; a ênfase era na graça e na predestinação.
- E)A partir do século XVII, sua religião passou a ser a mais seguida de todos os tempos, congregando pobres e ricos, capitalistas e proletários, mudando radicalmente a sociedade.
Errada, porque o calvinismo não se tornou a religião mais seguida de todos os tempos nem mudou radicalmente o mundo dessa forma.
Gabarito: C
A Reforma Protestante do século XVI não ficou só na religião. Em vários lugares da Europa, especialmente nas áreas influenciadas por João Calvino, surgiu uma nova forma de enxergar o trabalho, a disciplina e a vida cotidiana. Para o calvinismo, trabalhar com dedicação não era apenas uma necessidade material: podia ser visto como sinal de vocação e de fidelidade a Deus. É aí que a questão faz a ponte com a economia. A chamada ética protestante, sobretudo na leitura clássica de Max Weber, ajudou a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento do capitalismo. A ideia de vida regrada, poupança, disciplina e valorização do trabalho combinava muito bem com a lógica de acumulação e reinvestimento do lucro. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela acerta ao relacionar calvinismo e capitalismo por meio dessa afinidade: o calvinista valoriza o trabalho como forma de glorificar a Deus, enquanto o capitalista valoriza o trabalho como meio de gerar lucro. A questão explora exatamente essa conexão histórica e sociológica, que ficou conhecida como a tese da ética protestante e o espírito do capitalismo. Em resumo: Calvino não criou o capitalismo, mas sua doutrina influenciou mentalidades e práticas que favoreceram esse tipo de organização econômica. É uma daquelas questões em que a religião entra em cena e, de repente, você percebe que também está falando de comportamento econômico, disciplina social e vida moderna.