O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e viver e no sentimento estético do brasileiro. Por sua vez, em toda a outra costa atlântica se pode facilmente reconhecer os brasileirismos. Há comidas brasileiras na África, como há comidas africanas no Brasil. Danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia a dia africano. Com ou sem remorso, a escravidão foi o processo mais importante de nossa História. [...] O escravo ficou dentro de todos nós, qualquer que seja a nossa origem. (Costa e Silva, 2003.) A palavra “diáspora” foi originalmente usada no Antigo Testamento para designar a dispersão dos judeus de Israel para o mundo. Recentemente, tem se aplicado o mesmo vocábulo, por analogia à condição judaica, aos movimentos dos povos africanos e afrodescendentes no interior do continente negro ou fora dele. A diáspora traz em si a ideia do deslocamento que:
- A)Tanto no caso da África quanto no caso dos judeus, esteve profundamente enraizada nas perseguições e intolerância religiosa imposta pelos colonizadores de diversas origens.
Errada, porque mistura a diáspora judaica e a africana com perseguições coloniais e intolerância religiosa de forma imprecisa e historicamente inadequada.
- B)No caso africano, produziu-se em escala massiva durante o período do tráfico de escravos, entre os séculos XV e XIX, em um dos movimentos migratórios mais espetaculares da História moderna.
Certa, porque descreve a diáspora africana como um deslocamento massivo provocado pelo tráfico de escravos entre os séculos XV e XIX.
- C)A África esteve e ainda está ligada à condição da escravidão, introduzida pioneiramente pelos europeus no continente, resultado de guerras, perseguições políticas, religiosas ou mesmo de desastres naturais.
Errada, porque atribui a origem da escravidão africana aos europeus de forma simplificada e ainda mistura causas que não explicam a diáspora no sentido histórico cobrado.
- D)Para o povo africano reside um viés especificamente ritual e religioso, incentivado nas grandes massas populacionais por intermédio das crenças em premonições nefastas que apregoavam o final dos tempos.
Errada, porque reduz a diáspora a um suposto viés ritual e religioso, o que não corresponde ao conceito histórico nem ao processo real de deslocamento dos africanos.
Gabarito: B
A palavra “diáspora” nasceu no contexto bíblico para falar da dispersão dos judeus, mas hoje também é usada para outros povos que foram espalhados por expulsão, migração forçada ou deslocamento histórico. No caso africano, esse termo ficou muito associado ao tráfico atlântico de escravizados, que levou milhões de pessoas do continente para as Américas entre os séculos XV e XIX. Não foi uma migração voluntária nem tranquila: foi um processo violento, econômico e duradouro. É por isso que a alternativa B está correta. Ela identifica exatamente a diáspora africana como um movimento em escala massiva, ligado ao tráfico negreiro, um dos maiores deslocamentos populacionais da História moderna. Esse fluxo marcou profundamente o Brasil, as Américas e também o próprio continente africano, deixando heranças culturais, linguísticas, religiosas e culinárias nos dois lados do Atlântico. As demais opções tentam misturar temas verdadeiros com explicações erradas. A diáspora judaica e a africana não têm a mesma origem histórica, e não dá para resumir a dispersão africana a religião, premonições ou desastres naturais. O ponto central aqui é a escravidão atlântica, que reorganizou sociedades inteiras e produziu uma circulação forçada de pessoas, saberes e culturas. Se você quiser memorizar sem sofrimento: diáspora = dispersão de um povo; no caso africano, pense no tráfico de escravos e na formação do mundo atlântico. É um daqueles assuntos em que História Geral e História do Brasil andam de mãos dadas, quase de braços dados e com muita interferência cultural pelo caminho.