Eu vi que alguns de vocês temem ir em frente e lutar por nosso rei. Se estivéssemos nos bravos dias do passado [...] os chefes não assistiriam sentados nosso rei ser deposto sem disparar um tiro. Nenhum homem branco podia ter ousado falar com os chefes dos Axântis do modo como o governador falou com vocês esta manhã. É verdade que a bravura dos Axânti não existe mais? Eu não posso acreditar nisto. Se vocês, homens axânti, não forem em frente, então nós iremos. Nós, as mulheres, iremos. Chamarei cada companheira. Lutaremos com o homem branco. Lutaremos até que a última de nós caia no campo de batalha. A partir dos últimos anos do século XX, a historiografia passou a dedicar mais atenção à análise de documentos sobre a reação dos povos africanos ao imperialismo europeu. Desde então, esses estudos vêm mostrando que:
- A)A ideia segundo a qual os africanos viam os europeus como libertadores ou civilizadores corresponde à totalidade da África, pois não havia exceções.
Errada, porque generaliza de forma absoluta uma visão antiga e falsa de que toda a África teria recebido os europeus como libertadores ou civilizadores.
- B)No nordeste do continente africano, quando os colonizadores europeus resolveram tolerar e preservar a religião muçulmana, as rebeliões cessaram.
Errada, porque a tolerância à religião muçulmana em algumas áreas não eliminou as tensões nem fez cessar as rebeliões contra o domínio colonial.
- C)Raramente as sociedades africanas estabelecidas em territórios disputados pelos europeus empreenderam ações de resistência, por questões de crença e maus presságios.
Errada, porque a resistência africana foi frequente, e não rara; crenças e presságios não explicam a ausência de luta, que simplesmente não existiu como regra.
- D)Uma das poucas, mas representativas e peculiares revoltas, foi a rebelião do povo Axânti contra o domínio britânico, na Costa do Ouro, atual Gana, onde só mulheres lutaram.
Errada, porque a revolta axânti não foi uma exceção com participação apenas feminina; o enunciado destaca resistência africana em geral, e não uma narrativa exclusiva desse tipo.
- E)O poder tecnológico e militar das potências europeias garantiu o domínio do continente africano por quase um século. Mesmo assim, inúmeras ações de resistência ocorriam.
Certa, porque resume corretamente a relação entre superioridade militar europeia, dominação colonial e as inúmeras formas de resistência africana.
Gabarito: E
A historiografia mais recente sobre a África colonial corrigiu uma visão antiga e simplificadora: a de que os africanos teriam aceitado passivamente a dominação europeia. Hoje se destaca que houve muitas formas de reação, desde guerras abertas e rebeliões armadas até resistência cotidiana, negociação, fuga e preservação de práticas locais. Isso vale para várias regiões do continente e para diferentes povos. No caso do imperialismo europeu, o domínio foi facilitado pela superioridade tecnológica e militar das potências europeias, como armamentos, organização militar e apoio econômico-industrial. Mas isso não significa que a conquista tenha sido tranquila. Muito pelo contrário: em inúmeros momentos, povos africanos resistiram e obrigaram os colonizadores a gastar tempo, tropas e recursos para manter o controle. A alternativa E está correta porque expressa justamente essa leitura historiográfica: o poder militar europeu ajudou a impor o domínio colonial por quase um século, mas a África não foi um espaço de submissão total. Houve resistência em diferentes formas e intensidades, o que desmonta a velha ideia do colonizado passivo. Esse é um ponto central dos estudos pós-coloniais e da historiografia africana contemporânea. O texto-base sobre os axânti reforça isso: mesmo diante da pressão britânica, há registro de mobilização e enfrentamento, inclusive com participação feminina. Ou seja, a resistência africana existiu, foi diversa e merece ser tratada como parte ativa da história, não como nota de rodapé.