A questão central é como se deu a gênese da figura de Deus no Ocidente Medieval, um processo que tem início ainda na antiguidade tardia, ou seja, na fronteira entre o fim do Império Romano do Ocidente e a Idade Média, momento no qual o Cristianismo, de seita marginal, passa para o centro do Império com a conversão de Constantino em 313 até se tornar a religião oficial com Teodósio em 392 e passar de perseguido a perseguidor; fatores estes que marcam a virada do politeísmo para o monoteísmo. (LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média. Conversas com Jean-Luc Pouthier. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 17-39.) Em relação, especificamente, ao processo de cristianização da Europa, é correto afirmar que
- A)se dá inicialmente de maneira materialista, por meio da venda de indulgências temporais e espirituais e relíquias, para muito tempo depois, atingir o imaginário da população.
Errada, porque indulgências e relíquias são fenômenos posteriores e não explicam o início da cristianização europeia.
- B)não se deu de maneira homogênea e livre de tensões, existindo, ainda, algumas resistências que irão permanecer durante muito tempo e se apresentando de várias formas.
Certa, pois a cristianização foi gradual, desigual e marcada por resistências, permanências e adaptações locais.
- C)se conclui com a substituição compulsória e irreversível dos templos pelas igrejas, por meio da sua destruição, engendradas principalmente pelos bárbaros convertidos na Idade Média.
Errada, porque não houve substituição compulsória e irreversível dos templos por igrejas como regra geral do processo.
- D)ocorre através da substituição paulatina dos antigos heróis e semideuses pagãos, pelos mortos privilegiados e santos, criados, justamente, com a intenção de garantir a adesão à nova religião.
Errada, pois simplifica a cristianização como mera troca de heróis pagãos por santos, ignorando a complexidade histórica e regional.
Gabarito: B
A cristianização da Europa foi um processo longo, desigual e cheio de acomodações. Depois de se tornar cada vez mais forte no Império Romano, o cristianismo não “apagou” de uma vez as práticas pagãs: em muitos lugares ele conviveu com costumes antigos, foi adaptado por missionários e recebeu influências locais. Ou seja, não foi uma troca instantânea de religião, como se alguém apertasse um botão e pronto. Na Alta Idade Média, a Igreja expandiu sua presença por meio de redes episcopais, mosteiros, missões e da ação de reis convertidos, mas isso não eliminou automaticamente crenças anteriores. Em várias regiões houve resistência, sincretismo e permanências de cultos, ritos e mentalidades pagãs por séculos. A própria história medieval mostra que a evangelização foi, muitas vezes, um processo de negociação cultural, não uma imposição linear e perfeita. Por isso, a letra B está correta: a cristianização da Europa não ocorreu de forma homogênea nem sem tensões. Em áreas rurais, periféricas ou recém-convertidas, práticas antigas continuaram vivas, às vezes disfarçadas, às vezes reinterpretadas dentro do universo cristão. A Igreja precisou combater, tolerar ou absorver parte disso para consolidar sua influência. As demais alternativas exageram ou simplificam demais o processo. A cristianização não começou pela venda de indulgências, nem terminou com a destruição total dos templos, nem foi apenas uma troca mecânica de deuses pagãos por santos. O processo foi mais lento, mais misturado e, justamente por isso, muito mais interessante.