No passado, podiam-se acusar os historiadores de querer conhecer somente as gestas dos reis. Hoje, é claro, não é mais assim. Cada vez mais interessam-se pelo que seus predecessores haviam ocultado, deixado de lado ou simplesmente ignorado. Quem construiu Tebas, a cidade de sete portas? – perguntava o “leitor operário” de Brecht. As fontes não nos contam nada daqueles pedreiros anônimos, mas a pergunta conserva todo o seu peso. (GINZBURG, 1987, p. 15.) Os historiadores desempenham o relevante papel de investigar e esclarecer processos importantes que geraram o mundo em que vivemos hoje. Cabe a esse profissional:
- A)Preconizar uma história baseada nos grandes exemplos das civilizações pretéritas e nos heróis do passado nacional.
Errada, porque reduz a História aos grandes feitos dos reis e heróis, visão tradicional que a historiografia atual supera.
- B)Legitimar através de seus relatos, ideologias e poder, que se interligam com sistemas simbólicos imanentes à ação.
Errada, porque confunde o papel do historiador com legitimação de ideologias e poder, o que contraria a crítica histórica.
- C)Entender plenamente as ações de homens e mulheres no decorrer do tempo e nos dar respostas precisas sobre os problemas que enfrentamos no presente.
Errada, porque atribui ao historiador uma compreensão plena e respostas precisas do presente, algo impossível e excessivamente absoluto.
- D)Escrever um relato verdadeiro sobre o passado ou, ao menos, com um discurso baseado em critérios cientificamente aceitos de verificação e análise das fontes.
Certa, porque o historiador deve produzir um relato fundamentado em critérios científicos de verificação e análise das fontes.
- E)Fazer uma seleção do que ele considera importante, os recortes temporais e espaciais, que fará na sua redação, definindo as memórias que devem ser guardadas.
Errada, porque descreve a seleção e o recorte como se fossem a função central do historiador, mas isso é apenas parte do processo e não define sua finalidade principal.
Gabarito: D
A questão cobra a ideia moderna de História: o historiador não é um simples narrador de reis, guerras e datas, mas alguém que investiga o passado com método, critica as fontes e procura dar voz também aos grupos que ficaram fora da história oficial. É justamente essa mudança de olhar que aparece no texto de Ginzburg, quando ele lembra os pedreiros anônimos de Tebas, isto é, pessoas comuns que quase nunca aparecem nos registros tradicionais. Por isso, o trabalho do historiador não é inventar uma versão bonita do passado, nem repetir memórias prontas. Ele precisa analisar documentos, confrontar evidências, comparar versões e construir uma narrativa com base em critérios científicos de verificação e interpretação. Em outras palavras: a História é uma ciência humana, não uma fábrica de lendas com gravata. A alternativa D está correta porque resume bem esse procedimento: escrever um relato verdadeiro sobre o passado, ou pelo menos um relato fundamentado em métodos aceitos de análise das fontes. Na prática, o historiador busca a maior objetividade possível, mesmo sabendo que toda interpretação tem recortes e escolhas. Isso é coerente com a historiografia contemporânea, influenciada por correntes como a Escola dos Annales e pela valorização da história social e cultural. As demais alternativas ou exageram, ou distorcem o papel do historiador. A questão quer exatamente essa noção: História não é culto a heróis, nem propaganda, nem memória seletiva sem critério. É investigação crítica do passado para compreender processos históricos.