Os homens que lideraram o processo nacional de independência política na América Latina, de uma maneira geral, estavam imbuídos do ideário burguês liberal como justificativa de seus atos. Alguns, penso eu, acreditavam profundamente naquilo que pregavam. Em nome das ideias de liberdade, igualdade jurídica, legitimidade de propriedade privada, dentre outras, fizeram a independência e aceitaram mesmo algumas alterações mais profundas nas relações sociais, porque tiveram que enfrentar situações limites. (PRADO, 1994. P. 70.) Além do ideário burguês liberal, que permeou grande parte dos processos de independência da América Latina e a formação de seus Estados Nacionais, podemos destacar como ponto comum desse contexto:
- A)O estabelecimento imediato e unânime de sistemas de governo republicanos condizentes com a ideologia democrática.
Errada, porque não houve estabelecimento imediato e unânime de repúblicas democráticas; vários países viveram monarquias, caudilhismo e conflitos políticos após a independência.
- B)A decadência do poder das oligarquias locais que não mais podiam contar com a sustentação econômica por parte da Coroa.
Errada, porque as oligarquias locais não desapareceram, e em muitos casos continuaram no controle do poder político e econômico após a ruptura com a Coroa.
- C)A permanência de imensos contrastes sociais que acabaram se sustentando na nova organização administrativa e política.
Certa, porque a independência preservou muitas desigualdades sociais e a nova ordem política não eliminou os contrastes estruturais herdados do período colonial.
- D)A garantia de novas relações sociais alicerçadas pelas constituições nacionais imediatamente promulgadas após cada emancipação.
Errada, porque as constituições existiram em muitos casos, mas não garantiram imediatamente novas relações sociais nem resolveram os problemas de desigualdade e exclusão.
Gabarito: C
A independência da América Latina foi muito marcada por um discurso liberal, com ideias de liberdade, igualdade jurídica e propriedade privada. Só que existe uma diferença importante entre o que estava no papel e o que realmente mudou na vida social. Em muitos casos, a ruptura política com a metrópole não significou uma ruptura social profunda. Na prática, os grupos que assumiram o poder após a independência, em geral, eram elites locais que queriam autonomia política, mas sem desmontar a estrutura econômica e social herdada do período colonial. Ou seja, mudou o comando, mas não mudou tão rápido a base da sociedade. Por isso, falar em independência na América Latina é falar também em permanências, especialmente na desigualdade e na concentração de poder. É exatamente aí que o gabarito C se sustenta: apesar do novo discurso liberal e da criação de Estados nacionais, continuaram existindo grandes contrastes sociais, com exclusão das camadas populares, manutenção de privilégios e forte concentração fundiária e política. Em vários países, a independência foi mais uma troca de elites do que uma transformação completa da sociedade. Então, quando a questão pede um ponto comum desse contexto, desconfie das alternativas que prometem mudança imediata, unanimidade republicana ou reforma social profunda. Na América Latina do século XIX, o problema foi justamente o abismo entre projeto político e realidade social.