Embora usasse o título de rei desde a morte da mãe, a rainha D. Maria I, em 20 de março de 1816, D. João esperou quase dois anos para receber o juramento legal, eclesiástico e popular pela sucessão ao trono. Se até então D. João entendera a estada em sua colônia tropical como um idílio, a partir de 1817 uma nova realidade lhe estorvaria o pacato cotidiano. O decreto real que fixou a data foi publicado em 28 de janeiro de 1818, determinando o dia 6 de fevereiro para a celebração do reconhecimento de D. João como Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves, d’Aquém e d’Além- -Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Dentre os motivos que levaram ao atraso da cerimônia da coroação, podemos destacar, EXCETO:
- A)Em 9 de julho de 1816, data em que foi declarada a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata, um conflito estourou. O governo joanino interveio: a alegação oficial era evitar invasões; porém, a intenção não explícita era anexar ao Brasil a assim chamada Banda Oriental além do atual Uruguai. Estava em jogo o controle do estuário, por onde afluía todo o comércio do extremo sul.
Está relacionada à Guerra contra Artigas e à intervenção na Banda Oriental, um tema do período joanino que ajuda a explicar tensões políticas e militares da época.
- B)Surgiu em Pernambuco a Revolução Praieira, denominação derivada de um jornal liberal – O Diário Novo – cuja sede ficava na Rua da Praia, no Recife. É importante lembrar que aquele ano não foi um ano qualquer, pois, nele, uma série de revoluções democráticas varreu a Europa. Em Olinda e Recife, respirava-se o que um autor anônimo, adversário das revoluções, chamara muitos anos antes de “maligno vapor pernambucano”.
Está errada porque a Revolução Praieira ocorreu em 1848, muito depois da coroação de D. João VI, e portanto não pode justificar o adiamento de 1818.
- C)Em 1815, o tema da escravidão entra na pauta de negociações internacionais. Durante a realização do Congresso de Viena foi aprovada uma cláusula que abolia o comércio de escravos em todo o hemisfério Norte. O regente não só concordou em abolir o tráfico ao norte do Equador, como afirmou que exigiria melhores tratamentos para a população escravizada. No entanto, em uma sociedade escravocrata como a brasileira, este tipo de regulamentação tendia a ser engavetado. Entre o estatuto legal e a realidade havia imenso abismo.
Está certa como contexto histórico do período, pois o debate sobre o tráfico negreiro no Congresso de Viena e a pressão internacional também compunham o cenário joanino.
- D)Em 1817, estoura, em Pernambuco, o amplo movimento que rapidamente se transformaria na “pedra no sapato” da política joanina. Se até então o Império se mostrara bastante unido, no Norte, reagia-se agora às “pesadas contribuições e excessivas conscrições” provocadas pela conquista da Banda Oriental, “no que o povo do Brasil não só não tem parte, mas julga contrária aos seus interesses”. O peso dos impostos aumentava, bem como a desigualdade regional. Em suma, o sentimento nas regiões afastadas da Corte era o de que, com a vinda da Realeza, o domínio escorregara de Lisboa para o Rio de Janeiro.
Está relacionada ao atraso porque a Revolução Pernambucana de 1817 revelou instabilidade interna e reforçou o cuidado da monarquia com cerimônias de legitimação no Brasil.
Gabarito: B
A coroação de D. João no Brasil foi adiada porque o clima político estava longe de ser tranquilo. Mesmo após a morte de D. Maria I, o príncipe regente só assumiu com cerimônia formal mais tarde, em parte porque o governo joanino estava lidando com tensões internas e com a necessidade de consolidar sua autoridade no novo centro do Império: o Rio de Janeiro. Entre os fatores que pesavam nesse adiamento estavam a instabilidade política no período, especialmente a Revolução Pernambucana de 1817, e os custos e cuidados protocolares de uma coroação em contexto de guerra e reorganização do poder. A corte queria evitar uma solenidade que parecesse prematura ou frágil, justamente quando a monarquia precisava mostrar controle. Na prática, a celebração foi sendo empurrada até que o cenário ficasse menos desconfortável para a imagem régia. O item B é o gabarito porque erra completamente o tempo histórico: a Revolução Praieira não ocorreu em 1818, mas em 1848, já no Segundo Reinado, em outro contexto político e social. Ou seja, a alternativa mistura um movimento liberal do século XIX com o problema da coroação de D. João VI, que pertence ao início do período joanino. Resumo para não cair na armadilha: se a pergunta fala do atraso da coroação de D. João, pense em 1817, no medo de desordem e na situação política do Reino Unido. Se aparecer Praieira, pode desconfiar: a cronologia já entregou o erro antes mesmo de você terminar a frase.