A herança escravista deitou raízes tão profundas na sociedade brasileira que ainda hoje se fazem sentir. Além da inabarcável contribuição da cultura negra, são exemplos importantes as fronteiras mal delimitadas entre as esferas pública e privada e a semelhança estrutural entre ambas, principalmente até o final do Império. (MALERBA, 1999, p. 39). De acordo com o trecho acima e considerando a sociedade escravagista e a construção do estado brasileiro, assinale a alternativa CORRETA:
- A)A divisão social do trabalho no escravismo opôs radicalmente senhores e escravos. Os primeiros eram detentores do capital necessário para abastecer suas fazendas de insumos (instrumentos de trabalho, sementes, animais de tração etc.) e manter o plantel de negros, a despeito das oscilações do mercado internacional e da resistência escrava.
Certa, pois mostra a lógica do escravismo como base da economia e do poder, com senhores concentrando capital e escravizados sustentando a produção sob coerção.
- B)Formas diversas de escravidão, como a urbana, a doméstica e a dos negros artesãos coexistiram com gêneros híbridos resultantes das vicissitudes regionais e das diversas culturas agrícolas. Isso permitiu mudanças tão substanciais que alterou a estrutura econômica da monocultura.
Errada, porque a coexistência de formas variadas de escravidão não alterou substancialmente a estrutura da monocultura nem rompeu a lógica escravista dominante.
- C)Os negros expressaram sua insatisfação quanto ao cativeiro nas explosões de rebeldia individuais (morosidade no trabalho, agressões ou mesmo suicídios) ou coletivas (fugas e formações de quilombos). Foi nos quilombos que ocorreu a conquista da abolição.
Errada, pois quilombos foram formas de resistência, não o espaço em que ocorreu a abolição, que foi resultado de um processo político e social mais amplo.
- D)Ao lado da escravidão negra outras relações de produção não escravistas – como o colonato e os sistemas de parceria – foram tentadas já durante o período joanino, que passou a substituir gradualmente o latifúndio.
Errada, porque colonato e parceria só ganharam força bem mais tarde, especialmente no contexto da transição do trabalho escravo para o trabalho livre no século XIX final.
Gabarito: A
A questão trata de um ponto central da formação do Brasil: a escravidão não foi só um sistema de trabalho, mas uma base social, econômica e política. Por isso, ela deixou marcas profundas na organização do poder, na relação entre mando e dependência e até na dificuldade de separar o que era público do que era privado, especialmente no período colonial e imperial. No escravismo brasileiro, o senhor de engenho ou grande proprietário concentrava terras, pessoas, riqueza e autoridade local. Ele não era apenas patrão: muitas vezes exercia funções que hoje associamos ao Estado, como impor ordem, controlar conflitos e influenciar a vida pública. É justamente essa mistura de casa grande, fazenda, política e poder que ajuda a entender o trecho da questão. A alternativa A está correta porque descreve a divisão social do trabalho típica da sociedade escravavista: de um lado, senhores com capital e domínio sobre a produção; de outro, escravizados submetidos à coerção e à resistência. Esse modelo sustentava a grande lavoura exportadora e exigia investimento constante em ferramentas, insumos e manutenção da mão de obra cativa, mesmo com crises do mercado externo e fugas, rebeliões e outras formas de resistência. As demais alternativas escorregam ao exagerar mudanças que não ocorreram ou ao atribuir à escravidão processos históricos incompatíveis com a estrutura brasileira da época. Em resumo: a escravidão organizou a economia e também moldou as relações de poder, o que torna a opção A a que melhor dialoga com o texto de Malerba.