Considere o poema escrito por Estêvão de Fougères, religioso francês que viveu no século XII. Os clérigos devem por todos orar Os cavaleiros sem demora Devem defender e honrar E os camponeses sofrer Cavaleiros e clero sem falha Vivem de quem trabalha Têm grande canseira e dor Pagam primícias, corveias, orações ou talha E cem coisas costumeiras E quanto mais pobre viver Mais mérito terá Das faltas que cometeu Se paga a todos o que deve Se cumpre com lealdade a sua fé Se suporta paciente o que lhe cabe: Angústias e sofrimento. Fonte: FOUGÈRES, Estêvão de. In: DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982. p. 309-311. A partir da leitura do poema, é possível afirmar que:
- A)Na relação de servidão, os servos não eram proprietários das terras em que trabalhavam.
Certa: no sistema servil, o camponês usava a terra, mas não era proprietário dela.
- B)Nas relações de servidão era possível mudar de classe social por meio do trabalho.
Errada: a sociedade feudal era hierarquizada e a mobilidade social era muito limitada.
- C)A nobreza era vista como solidária ao conceder terras aos cavaleiros.
Errada: a doação de terras aos cavaleiros era parte da lógica de dependência feudal, não um gesto de solidariedade.
- D)A principal função do clérigo era orar pelos camponeses e intermediar as relações entre a nobreza e os escravizados.
Errada: o clérigo orava, mas não intermediava relações com escravizados, até porque o poema trata de servos e não de escravos.
Gabarito: A
O poema de Estêvão de Fougères resume bem a sociedade feudal dividida em três ordens: os que oram, os que guerreiam e os que trabalham. Os clérigos cuidariam da salvação espiritual, os cavaleiros defenderiam a sociedade, e os camponeses sustentariam o sistema com seu trabalho pesado e vários encargos. É uma visão típica do feudalismo, em que cada grupo tinha uma função social considerada quase natural e sem muita mobilidade. A ideia central da questão está na servidão. O servo trabalhava na terra do senhor, mas não era dono dela, nem tinha plena liberdade para se apropriar do produto do trabalho. Ele devia prestações como corveia, talha e outras obrigações, o que aparece claramente no poema. Em troca, recebia proteção e o direito de usar um lote de terra para sobreviver. Por isso, o gabarito A está correto: na relação de servidão, os servos não eram proprietários das terras em que trabalhavam. A terra pertencia ao senhor feudal, e o camponês tinha apenas o uso vinculado a obrigações e dependência. Não é uma relação moderna de emprego com ascensão livre, mas uma estrutura hierárquica rígida. Se a questão fosse sobre a lógica feudal em geral, vale lembrar que ela não se baseava em igualdade, mas em dependência e deveres recíprocos desiguais. A Igreja legitimava a ordem social, a nobreza guerreira se sustentava sobre o trabalho camponês e os servos ficavam na base da pirâmide. Era um sistema pouco simpático para quem estava no campo - e o poema não deixa isso esconder.