As usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio compõem o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, construído entre os anos de 2008 e 2016. Esse complexo possui capacidade instalada de 7318 MW e está localizado em Porto Velho, no estado de Rondônia. Dado o montante de geração e a distância dos centros de carga do sudeste (2375 km), optou-se pelo transporte da energia gerada por meio de um sistema em corrente contínua (CC) das usinas até a subestação de Araraquara, no estado de São Paulo. A respeito da topologia do sistema de transmissão em CC do Complexo do Rio Madeira, é correto afirmar que é composto
- A)por dois bipolos ±800 kV totalizando 8000 MW de capacidade para ligação com o estado de São Paulo, sem conexão com a rede local, em razão da fragilidade dessa rede não suportar o sincronismo com as usinas de grande porte.
Errada: a potência e a configuração não batem com o projeto real, e o sistema não foi concebido como dois bipolos de ±800 kV sem conexão local.
- B)por um bipolo ±800kV com 4000MW de capacidade e conexão com a rede local de 500 kV em corrente alternada (CA) para escoamento do restante da potência do complexo, de forma que o complexo opera de forma síncrona em relação ao SIN.
Errada: não é um único bipolo de ±800 kV com 4000 MW, e o complexo não opera de forma síncrona apenas por essa solução.
- C)por duas conversoras back-to-back com capacidade total de 8000MW que mantém o sistema assíncrono em relação ao SIN, isolando possíveis perturbações. Essa potência é então escoada para os grandes centros pela rede CA existente em 500kV.
Errada: back-to-back serve para interligação entre redes próximas e não para escoar toda a geração em longa distância, além de a potência e a arquitetura estarem incorretas.
- D)por dois bipolos ±600 kV totalizando 6300 MW de capacidade para ligação com o estado de São Paulo e duas conversoras back-to-back com total de 800 MW para interligação com a rede local, de forma que o complexo opera de forma assíncrona em relação ao SIN.
Certa: descreve a configuração híbrida real do Complexo do Rio Madeira, com dois bipolos em CC e conversoras back-to-back para integração local, em operação assíncrona ao SIN.
- E)por um bipolo ±600kV com 3150MW de capacidade e conexão com a rede local de 500 kV em CA para escoamento do restante da potência do complexo. Assim, o complexo opera de forma síncrona em relação ao SIN.
Errada: os valores de tensão e potência não correspondem ao empreendimento e a lógica de operação síncrona não é a adotada.
Gabarito: D
Quando a geração fica muito longe do centro de carga, a corrente continua vira a estrela do jogo. Em linhas muito extensas, a transmissão em CC tem menos perdas reativas e permite transportar grandes blocos de energia com mais controle. No Complexo do Rio Madeira, isso foi especialmente importante porque a potência gerada em Rondônia precisava chegar ao Sudeste sem depender apenas da malha em CA do caminho. A topologia adotada foi híbrida: parte da energia sai por enlaces em CC para o Sudeste e parte é tratada por conversoras back-to-back para integração com a rede local. Isso faz sentido porque o sistema do Madeira não foi pensado para obrigar a usina a operar sincronizada com toda a rede do SIN, mas para escoar a geração com flexibilidade e segurança. Em outras palavras: separa-se o que precisa viajar longe do que pode ser acomodado localmente. É por isso que o gabarito D está correto: o complexo conta com dois bipolos de aproximadamente ±600 kV, somando 6300 MW, e com duas conversoras back-to-back totalizando 800 MW para a interligação local. Essa solução permite que o conjunto opere de forma assíncrona em relação ao SIN, reduzindo a propagação de perturbações entre sistemas e dando robustez ao escoamento. Como ideia de prova, lembre que em transmissão de longa distância e grande potência, CC costuma aparecer quando CA já não é a escolha mais eficiente. Não é magia, é engenharia com menos dor de cabeça elétrica.