Por sua matriz com alta participação de renováveis, os desafios do Brasil na mitigação das emissões de GEE passam por uma vasta gama de alternativas que possuem custos e benefícios bastante variados, cabendo ao País escolher aquelas ações mais custo-efetivas. A esse respeito, analise as afirmativas a seguir. I. Por contar com grande participação de fontes renováveis, que dependem intrinsicamente do comportamento das variáveis climáticas, o sistema energético brasileiro precisa se preparar em relação a vulnerabilidades decorrentes de variações nos padrões de temperatura, precipitação, vento e insolação ao longo do território nacional que, em última instância, podem impactar a distribuição dos recursos renováveis e a oferta de energia. II. A bioeletricidade, em especial aquela proveniente do bagaço de cana, apresenta potencial de aproveitamento para produção de energia elétrica no SIN bastante competitivo. A bioeletricidade proveniente do bagaço de cana possui um “negócio” multicommodity, envolvendo a comercialização de quatro produtos: açúcar, etanol, eletricidade e créditos de carbono. III. A mudança climática global não impacta a indústria de energia eólica por não ser influenciada pelo clima regional, não afetando a variabilidade anual das velocidades do vento, dos índices de vento e da densidade de energia. Está correto o que se afirma em
- A)I, II e III.
A alternativa A reúne as três assertivas como verdadeiras. As assertivas I e II estão de acordo com a literatura sobre clima e energia no Brasil, mas a III erra ao dizer que a energia eólica não sofre influência do clima regional. Na prática, velocidade, regime dos ventos e densidade de energia variam com condições meteorológicas e podem ser alterados por mudanças climáticas, de modo que a inclusão de III torna a opção incorreta.
- B)I e II, apenas.
A alternativa B afirma que apenas as assertivas I e II estão corretas. Isso está de acordo com o conteúdo técnico: I descreve a vulnerabilidade do sistema energético brasileiro às variações de temperatura, chuva, vento e insolação, e II reconhece o potencial competitivo da bioeletricidade da cana, inclusive como negócio multicommodity com açúcar, etanol, eletricidade e créditos de carbono. A III é a única falsa, porque a geração eólica depende diretamente do clima regional e pode ter sua variabilidade afetada por alterações climáticas.
- C)II, apenas.
A alternativa C sustenta que somente a assertiva II seria verdadeira. Embora a II esteja correta ao destacar a competitividade da bioeletricidade da cana no SIN, a I também é verdadeira, pois o setor elétrico brasileiro precisa lidar com riscos climáticos sobre hidrologia, vento e radiação solar. Assim, a opção fica incompleta por excluir uma assertiva que também procede.
- D)I, apenas.
A alternativa D considera correta apenas a assertiva I. De fato, a I está bem fundamentada ao apontar que a alta participação de renováveis expõe o sistema elétrico brasileiro a vulnerabilidades climáticas e à necessidade de adaptação. Porém a II também está correta, pois a cogeração a partir do bagaço de cana é uma solução economicamente competitiva e integrada a várias fontes de receita, então a resposta não pode se limitar à I.
- E)I e III, apenas.
A alternativa E afirma que as assertivas I e III estariam corretas. A I procede, mas a III contraria o próprio conceito de energia eólica ao negar a dependência do recurso vento em relação às condições climáticas regionais. Como a III é falsa e a II também é verdadeira, essa combinação não corresponde ao enunciado.
Gabarito: B
A questão mistura três ideias bem cobradas em energia e clima: vulnerabilidade do sistema energético, bioeletricidade da cana e impacto da mudança climática sobre a eólica. No Brasil, como a matriz tem muita fonte renovável, especialmente hídrica e biomassa, o sistema fica mais sensível a variações de temperatura, chuva, vento e insolação. Isso mexe com reservatórios, geração solar, eólica e disponibilidade de biomassa, então faz sentido falar em planejamento para reduzir risco climático. A afirmativa II também está correta. A bioeletricidade do bagaço de cana tem grande potencial no SIN e é mesmo vista como uma opção competitiva, principalmente porque a cadeia sucroenergética consegue aproveitar vários produtos ao mesmo tempo: açúcar, etanol, eletricidade e, em certos arranjos, créditos de carbono. É o famoso modelo multicommodity, em que a usina tenta ganhar dinheiro em várias frentes, sem depender de uma só. Já a afirmativa III está errada porque a energia eólica não vive em uma bolha climática. Mudanças climáticas podem alterar padrões regionais de vento, sazonalidade e densidade do ar, afetando a variabilidade da geração. Então a frase exagera ao dizer que a indústria eólica não sofre influência do clima regional. Por isso, o gabarito é a letra B: somente I e II estão corretas. Em provas da FGV, vale atenção aos absolutos do tipo "não afeta", "não influencia" e "não depende", porque costumam ser o sinal de que a banca quer pegar você no excesso de certeza.