Leia o trecho a seguir. Philippe Dubois traçou um percurso histórico das diversas posições adotadas perante a fotografia por teóricos, literatos e fotógrafos em seu livro “O ato fotográfico” (1994). Há autores que consideram a fotografia um autêntico “espelho do real”; outros, a “transformação do real”; e, outros, ainda, “traço de um real”. (BUITONI, 2012) Sobre esses três pontos de vista, analise as afirmativas a seguir. I. Os que defendem a fotografia como espelho do real têm uma visão ingênua ao acreditar que ela é uma cópia objetiva do real, a partir de um efeito de realidade atribuído à semelhança existente entre a foto e seu referente. II. Os que entendem a fotografia como transformação do real, além de criticarem a perspectiva do espelho, defendem que a fotografia é um instrumento de transposição, análise, interpretação e até de transformação do real, envolvendo códigos culturais. III. Os que propõem que a fotografia é um traço de um real consideram que, apesar dos códigos e das ideologias, há uma singularidade que a diferencia de outros modos de representação: uma contiguidade física do signo com seu referente. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa sustenta que apenas a afirmativa I está correta, isto é, que a fotografia pode ser entendida como um “espelho do real”, numa leitura de aparente objetividade fundada no efeito de semelhança com o referente. Esse conteúdo está correto em I, porque Dubois descreve justamente essa visão ingênua e mimética da fotografia. O problema é que II e III também correspondem a posições válidas no percurso teórico apresentado, então a exclusão delas torna a alternativa incompleta.
- B)II, apenas.
A alternativa afirma que só a afirmativa II procede, ao tratar a fotografia como “transformação do real”, isto é, como um meio de transposição, análise, interpretação e intervenção sobre o mundo por meio de códigos culturais. Esse núcleo conceitual está certo em II, porque Dubois opõe essa perspectiva à ideia de espelho e destaca a mediação simbólica da imagem. O erro é dizer que apenas ela está correta, já que I e III também descrevem, com precisão, outros dois pontos de vista do mesmo autor.
- C)III, apenas.
A alternativa diz que somente a afirmativa III está certa, defendendo a fotografia como “traço de um real”, ou seja, como signo marcado por contiguidade física com seu referente, em linha com a ideia de índice. Essa formulação está correta em III, porque Dubois enfatiza a singularidade fotográfica apesar das mediações culturais e ideológicas. Ainda assim, não é a única afirmação verdadeira: I e II também traduzem adequadamente as outras posições históricas apresentadas no enunciado.
- D)I e III, apenas.
A alternativa reúne apenas I e III, e essas duas afirmativas realmente correspondem a dois dos polos descritos por Dubois: a fotografia como espelho do real e como traço de um real. I acerta ao apontar a leitura objetivista baseada no efeito de realidade, e III acerta ao destacar a contiguidade física entre imagem e referente. O equívoco está em excluir II, porque a fotografia também é definida, nesse percurso, como transformação do real mediada por códigos culturais.
- E)I, II e III.
A alternativa reúne I, II e III, e é exatamente isso que o trecho de Dubois permite afirmar. I descreve a visão da fotografia como espelho do real; II, a fotografia como transformação do real, atravessada por códigos culturais; e III, a fotografia como traço de um real, marcada pela contiguidade física com o referente. Como as três proposições sintetizam corretamente as três posições teóricas mencionadas, esta é a combinação integralmente correta.
Gabarito: E
A questão trata de uma classificação clássica da teoria da fotografia, associada a Philippe Dubois, que organiza as leituras da imagem fotográfica em três grandes pontos de vista: fotografia como espelho do real, como transformação do real e como traço de um real. A ideia é perceber que não existe uma única forma de entender a foto: ela pode parecer uma cópia fiel, pode ser vista como construção cultural e pode, ainda, ser entendida como vestígio físico do que esteve diante da câmera. No primeiro olhar, a fotografia como espelho do real traduz uma visão mais ingênua, porque aposta na semelhança entre imagem e referente como se a foto fosse uma reprodução objetiva do mundo. É justamente a lógica do “parece verdade, então deve ser verdade”, que a teoria critica ao mostrar que toda fotografia envolve recorte, enquadramento e escolhas. Já a fotografia como transformação do real reconhece que a imagem não só registra, mas também interpreta. Aqui entram códigos culturais, intenções do fotógrafo, contexto de produção e leitura, o que faz a fotografia funcionar como instrumento de análise e até de reconfiguração do mundo representado. Em vez de mero espelho, ela vira linguagem. Por fim, a fotografia como traço de um real destaca sua relação material com o referente: a foto guarda uma contiguidade física com aquilo que esteve diante da câmera, como um vestígio. Por isso, as três afirmativas estão corretas: a I define bem a visão do espelho, a II resume a transformação do real e a III explica o traço de um real. Resultado: gabarito E.