“De um modo próprio, o Tropicalismo, na música popular brasileira, estava fazendo a operação que, no mesmo momento, [Andy] Warhol praticava nas artes plásticas dos Estados Unidos.” Adaptado de DUARTE, Pedro. Tropicália ou Panis et circencis. Rio de Janeiro: Cobogó, 2018. Considerando as obras produzidas pelos tropicalistas no Brasil e pela pop art nos Estados Unidos da América, o autor está se referindo à
- A)assunção de posições nacionalistas voltadas à restauração de uma identidade coletiva tradicional.
Errada, porque tropicalismo e pop art não defendem um retorno nacionalista a uma identidade tradicional, e sim a mistura crítica de referências da cultura de massa e do cotidiano.
- B)inclusão dos elementos triviais e kitsch do mercado como materiais para uma arte sofisticada.
Certa, pois ambos transformam elementos triviais, kitsch e mercadológicos em matéria de uma arte elaborada e crítica.
- C)mistura entre elementos arcaicos e modernos em composições que os expunham em simultaneidade.
Errada, porque a simples justaposição de arcaico e moderno lembra mais outras vertentes da arte brasileira, mas não resume o paralelo feito entre Tropicalismo e pop art.
- D)crítica ostensiva à indústria cultural, conduzindo à recusa do consumismo do modo de vida moderno.
Errada, porque nem o Tropicalismo nem a pop art fazem uma recusa total da indústria cultural; eles a incorporam e ressignificam.
- E)adesão ao modo de vida americano do pós-guerra como modelo universal de um mundo cosmopolita.
Errada, porque não se trata de adesão acrítica ao modelo americano, mas de apropriação crítica de signos do consumo e da cultura de massa.
Gabarito: B
A questão compara dois movimentos que dialogam com a cultura de massa, mas sem tratar isso como “arte menor”. No Tropicalismo, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Hélio Oiticica e outros incorporaram referências da publicidade, da televisão, do consumo, do kitsch e da cultura popular urbana para produzir uma arte crítica, híbrida e provocadora. Na pop art, Andy Warhol fez algo parecido nas artes visuais ao transformar latas, celebridades, embalagens e imagens do cotidiano em matéria de obra, mostrando que o banal também pode virar linguagem artística. O ponto central, portanto, é a valorização dos elementos triviais e do repertório do mercado como materiais legítimos da criação. Isso não significa simplesmente “copiar” a indústria cultural, mas reelaborá-la com ironia, distanciamento e crítica. É a velha manobra de pegar o que parece superficial e fazer disso uma reflexão afiada sobre consumo, mídia e modernidade. Por isso, o gabarito é a letra B. Tanto o Tropicalismo quanto a pop art trabalham com o popular, o descartável e o kitsch, mas elevam isso ao campo da arte sofisticada. A sacada está justamente nessa tensão: o que vem do mercado entra na obra, mas não como submissão ingênua, e sim como matéria-prima crítica.