Qualquer aproximação da obra cômica de Martins Pena tem de levar em consideração um pressuposto básico: ele era um homem de teatro e não o que vulgarmente se entende por escritor. Isto significa que seu texto tem de ser visto ou imaginado enquanto representação concreta, e não simplesmente texto escrito. Adaptado de ARÊAS, Vilma Sant´Anna. Na Tapera de Santa Cruz: uma leitura de Martins Pena. São Paulo: Martins Fontes, 1987, p. 139. Com base na perspectiva citada no trecho, as afirmativas a seguir indicam corretamente atributos da comédia de costumes de Martins Pena, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)Reprodução da realidade, mediante a exposição das engrenagens das conjunturas sociais e culturais apresentadas do modo mais naturalista possível.
Errada, porque atribui à comédia de Martins Pena um naturalismo que não é sua marca estética.
- B)Criação de uma linguagem capaz de dar feição cômica à expressão da realidade, apresentando as precariedades da vida social das personagens em chave popular e satírica.
Certa, pois destaca a linguagem cômica, popular e satírica, muito ligada à crítica dos costumes.
- C)adequação do modo de falar das personagens às suas condições sociais ou morais.
Certa, porque as falas das personagens costumam refletir sua posição social e moral no palco.
- D)Atribuição de um tom de espontaneidade e oralidade a tipos que representam o protótipo do brasileiro.
Certa, já que Martins Pena cria tipos com oralidade e espontaneidade ligados ao brasileiro comum.
- E)Utilização eficiente dos recursos estilísticos para a construção das falas verbalizadas no palco, como metáforas, comparações, ironia e hipérbole, entre outros.
Certa, porque o texto dramático depende de recursos estilísticos que funcionam muito bem na representação cênica.
Gabarito: A
Martins Pena é um nome central da comédia de costumes no teatro brasileiro do século XIX. Quando a questão lembra que ele era прежде de tudo um homem de teatro, ela está dizendo que a peça não deve ser lida como um texto literário frio e descritivo, mas como algo feito para ganhar vida no palco, na voz, no gesto e no ritmo da fala. Por isso, a comédia dele valoriza tipos sociais, linguagem coloquial, ironia e exagero cômico, sempre com forte efeito de cena. Nesse tipo de comédia, o objetivo não é reproduzir a realidade com neutralidade quase científica, como faria depois o naturalismo. O que interessa é satirizar costumes, expor comportamentos ridículos e mostrar, com humor, as precariedades da vida social. A linguagem das personagens também ajuda muito: cada fala combina com a posição social, moral e cultural de quem fala, o que cria verossimilhança teatral e reforça a crítica. A alternativa A está errada porque descreve uma postura naturalista, com reprodução da realidade do modo mais natural possível e exposição de engrenagens sociais como se a peça fosse um retrato objetivo do mundo. Isso não é a marca de Martins Pena, que trabalha com caricatura, tipificação e comicidade de cena, não com naturalismo. Em termos de história do teatro, ele antecipa uma visão crítica da sociedade, mas ainda dentro de uma estética cômica e popular. Assim, a questão cobra justamente a diferença entre representar a vida social no palco com humor e tipos reconhecíveis, e tentar copiar a realidade de forma naturalista. Em Martins Pena, a cena manda mais do que a página: a fala, o gesto e a comicidade são o coração da obra.